coração
s. m.
1. Órgão musculoso, centro da circulação do sangue.
2. Parte exterior do corpo correspondente ao coração.
3. Fig. Sentimentos.
4. Sensibilidade, afeição, amor.
5. Consciência.
6. Coragem, valor.
7. Voz secreta.
8. Centro, parte mais central.
9. Cerne (da árvore).
10. Técn. Peça angular numa intersecção de via-férrea.
11. Bras. Varanda.
Alguns momentos da vida perecem tirar-nos do cerne mole e confortável de existir, a ignorância leviana da alegria e do sentir o amor penetrar a sua vida. Desde que eu me abri para essa tentativa de amar alguém, depois de algumas ilusões, algumas angustias e violências, pensei que esse músculo débil, que tem movimentos que eu não comando – e isso me faz sentir que ele não é tão débil assim, mas na verdade algo com uma vontade própria um tanto peculiar - tivesse a bondade de se poupar de tamanho masoquismo. É tão estranha, toda a fortaleza e resistência antes experimentada em relação a esse sentimento parece sumir com um sorriso, e o clichê de ouvir sinos parece existir e a vida vira uma dessas histórias melosas que donas de casa lêem. Mas o pior de tudo é o sentimento de posse que o amor lhe confere, você passa a achar que a pessoa lhe pertence, e passa a ser como um órgão vital, o seu motivo de existir – como se isso fosse realmente possível – uma vez eu vi em algum lugar um pensamento de alguém que questionou essa posse, e foi algo mais ou menos assim: “como eu pude pensar que ele era meu? Ele sempre foi dele!” acho que quem disse isso foi Frida. Mas o pior de quando o coração aceita o amor, nós temos sede como um bebê indo pro seio da mãe, nós queremos todo o líquido nutritivo, com as vitaminas que um relacionamento necessita: fidelidade, lealdade, amizade, companheirismo, cumplicidade, sexo, atração e por ai vai, eu não sou um bom nutricionista de relacionamentos, eu não acertei muito com o meu. Mas a única coisa que você sabe é que só você pode oferecer esse alimento, e não pode esperar que o outro te alimente da mesma maneira. Bom eu experimento um onde sexo pode não faltar – apesar de achar sexo uma chatice, eu acho que ele deveria ser como a cereja do bolo, mas nada nesse mundo se alimenta só de cerejas – eu não fui alimentado com fidelidade e lealdade, nutrientes que formariam a confiança, e com esse amor subnutrido, conseguiu-se empurrar por muito tempo um relacionamento fadado ao fracasso, porque por mais subnutrido que ele estivesse ele era forte e até certo ponto sincero, por mais que a entrega e o trabalho de uma das pessoas fosse bem maior, continuando com essa comparação idiota e simples de leite materno, uma das lactantes decidiu seguir uma dieta para acalentar e nutrir bem esse filho que era uma novidade tão boa - por não saber o que lhe esperava – enquanto a outra continuou bebendo e fumando, passando toda a irresponsabilidade premeditada para alguém inocente, já que ela sabia bem dos riscos da gravidez, no caso, do relacionamento. Por isso que quando eu digo que esse relacionamento é meu, eu não estou sendo uma vitima e muito menos egoísta, ele foi meu sim. Eu que resisti a todas as tentações como um verdadeiro cristão. Eu que sempre pensei em nós. NÓS é tão engraçado! Como uma pessoa racional se entrega a outra dessa forma passional e louca? Foi assim que muita gente se matou, não foi? Essa entrega para um desconhecido que você julga ser sua própria carne, que você jura de pés juntos desvendar com um olhar, em um segundo toda essa certeza vai por água abaixo. E por mais que as forças desse relacionamento tenham aumentado com o tempo, ele fica tão forte quanto um castelo de cartas dentro de um furacão. E quem sempre lutou para que tudo fosse um sonho de fadas de Cinderela e Branca de Neve sentirem inveja mordaz, acaba vendo sua vida virando um inferno bem a moda Lady Di, só que sem paparazzi. Mas ao mesmo tempo, nem todo mundo tem força para um recomeço. Sofrer só? Depois de ter planejado a sua velhice com alguém não é uma tarefa fácil. E essas coisas só são compreensíveis depois de embarcar nessa barca furada do amor. Porque antes, todos julgam quem perdoa uma traição, e hoje, muito mais que um jogo político, eu entendo a força da Hillary Clinton. A traição dela foi algo exposto pro mundo, uma dor tão intima compartilhada com o resto do globo. A minha não é tão exposta, a não ser por essas palavras e obvio a exposição de saber que as pessoas que usaram do meu relacionamento um dia podem me ver com o traidor é desanimador. Na verdade é como acordar pela manhã e sair pela rua sem as roupas e ninguém te avisar. Isso te desarma, acaba com toda a cumplicidade ficar imaginando a pessoa que você acreditava amar beijando as outras como te beija, acariciando outras como faz com você, e até se enquanto ela transava bêbada com outra pessoa chamando o nosso nome parece um ultraje, é como perder a gravidade e sair pelo espaço. Eu não sei, mas só quem já sofreu de amor pode ser um bom parceiro, eu acho que uma pessoa que já sofreu muito por alguém pode privar outras de sentirem isso, e como eu já tinha sofrido o suficiente antes e a grana também anda curta para tarja preta, eu resolvi fazer de tudo para que essa pessoa não sofra. Quer algo mais altruísta? Não deixar a pessoa sofrer, mas você ficar dias sem dormir, noites revirando pensando onde que estava seu erro... E tem horas que parece que o erro foi justamente ser tão altruísta, fazer de tudo para essa pessoa não sofrer. Quem sabe um pouco de dor em um coração tão egoísta e pequeno que troca tudo o que você pode oferecer por um pouco de diversão sem compromisso e sexo casual, mas que tipo de dor causar sem se igualar? E se sentir tão reconfortado que passar por cima disso seja mais fácil? Não faço a menor idéia, mas queria muito. E é por isso que eu quero morrer com um infarto, eu quero que esse coração idiota sofra pelo menos um pouco, pois se eu tenho que dar o troco em alguém é nesse coração masoquista, idiota que só faz besteira, que só trás sofrer.
O coração é enganador
Acima de todas as coisas, e incorrigível;
Quem poderá compreendê-lo?
Jeremias 17-9
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